Nos últimos anos, a Venezuela deixou de ser um destino relevante para o agronegócio brasileiro, mas a história mostra que isso pode mudar se houver recuperação econômica.
Em 2014, a participação venezuelana nas exportações do setor brasileiro era significativamente maior do que hoje, e a disputa entre Brasil e Estados Unidos tende a se intensificar em caso de retorno da demanda.
Analistas avaliam que a política comercial aplicada pelos Estados Unidos também amplia a capacidade americana de conquistar compradores como a Venezuela, apesar de o país sul-americano poder comprar tanto do Brasil como dos EUA, conforme informação divulgada pela Secex.
Como mudou a participação venezuelana nas exportações brasileiras
Pelo menos 3% das exportações do agronegócio, em 2014, iam para o país vizinho, enquanto, atualmente, com a crise econômica vivida pelos venezuelanos, as importações deles representam apenas 0,3% do que os brasileiros exportam nesse setor.
Em valores nominais, em 2014, os brasileiros exportaram o correspondente a US$ 3 bilhões para os venezuelanos, e os americanos colocaram produtos agropecuários no valor de US$ 1,29 bilhão naquele ano.
No ano passado, as exportações brasileiras recuaram para US$ 573 milhões, e as americanas somaram US$ 602 milhões até setembro, dados que mostram a aproximação dos EUA no mercado venezuelano.
Produtos em disputa e vantagens comparativas
O Brasil e os Estados Unidos competem nos mesmos nichos do comércio mundial, com exceção do trigo e do açúcar. O Brasil exporta açúcar e é líder mundial nas exportações do produto, enquanto os EUA são importadores.
O Brasil ofereceu à Venezuela açúcar, soja, óleo de soja, milho, arroz, máquinas agrícolas e produtos agroquímicos. Os Estados Unidos também exportaram milho, arroz, soja, óleo de soja, algodão e trigo.
Em 2014, a Venezuela liderava a importação de leite, arroz e de animais vivos do Brasil, era a terceira maior importadora de carnes e estava entre os principais países na compra de açúcar, milho e algodão.
Arroz, volumes e uma triangulação comercial
A importação de arroz pelos venezuelanos continua elevada, com 219 mil toneladas no ano passado, segundo a Secex. No entanto, esse volume está distante do de 2018, quando as compras feitas pela Venezuela atingiram 593 mil toneladas do cereal.
As exportações brasileiras de arroz atingiram 1,28 milhão de toneladas no ano passado, segundo a Secex. Em 2018, haviam sido 1,46 milhão. Em uma triangulação comercial, os chineses dão garantia à compra do cereal brasileiro pelos venezuelanos, o que ajuda a explicar parte do fluxo comercial atual.
Custos, margens e o impacto sobre produtores brasileiros
No último trimestre de 2025, os custos operacionais na produção de arroz caíram em algumas regiões do Rio Grande do Sul em relação aos de igual período de 2024. A queda dos preços, no entanto, foi de 46% no mesmo período, o que levou as margens para o campo negativo de até 12%, segundo o Cepea.
Para equilibrar a temporada, os produtores precisarão aumentar a produtividade de 70%, em Camaquã, a 80%, em Uruguaiana, em relação ao último trimestre de 2024, um salto difícil de alcançar na prática.
É um volume muito alto para cobrir os custos operacionais, chegando a 200 sacas por hectare em Uruguaiana e a 175 sacas em Camaquã, segundo o Cepea, enquanto a produtividade normal fica abaixo das 175 sacas nessas regiões.
O cenário indica que, mesmo com retomada da demanda venezuelana, o agronegócio brasileiro enfrentará competição direta dos Estados Unidos, e a dinâmica de preços, logística e acordos comerciais pode definir quem ganhará participação no mercado venezuelano.