A política de deportação de imigrantes nos Estados Unidos, com o objetivo declarado de abrir vagas para trabalhadores americanos, está encontrando um obstáculo inesperado: a automação. Em vez de preencherem as posições deixadas pelos imigrantes, muitos postos de trabalho estão sendo substituídos por robôs.
Essa tendência é particularmente forte no setor agrícola, onde a dependência de mão de obra imigrante era alta. A dificuldade em encontrar americanos dispostos a realizar tarefas pesadas e repetitivas impulsiona o investimento em tecnologias que prometem maior eficiência e menor custo a longo prazo.
A realidade é que a substituição mais provável para o trabalhador imigrante não é o americano, mas sim o robô. Conforme divulgado pelo The New York Times, essa mudança de paradigma afeta diversas indústrias, forçando uma reavaliação das estratégias de contratação e investimento.
Robôs assumem o controle na ordenha e limpeza de fazendas
Em fazendas leiteiras, como a de Dale Hemminger, no interior de Nova York, robôs já realizam a ordenha das vacas. Essas máquinas limpam o animal, conectam os copos às tetas, extraem o leite e ainda dispensam um petisco. Um novo celeiro em construção contará com robôs coletores de fezes, que circulam pelo chão recolhendo o esterco.
Whitney Davis, especialista em automação da Finger Lakes Dairy Services, explica que o trabalho no campo, embora possa pagar bem, não é o mais desejável. “Quente no verão, frio no inverno, esterco de vaca — e, além de tudo isso, é realmente um trabalho de linha de montagem”, afirma.
A disponibilidade de mão de obra imigrante de baixo custo desacelerou a adoção de robôs nas últimas décadas nos EUA. No entanto, a recente repressão à imigração está mudando esse cenário. De acordo com o Pew Research Center, mais de 750 mil imigrantes deixaram a força de trabalho dos EUA no primeiro semestre de 2025.
Automação expande seu alcance para além da agricultura
A inteligência artificial está impulsionando a criação de máquinas capazes de realizar tarefas cada vez mais complexas. O LaserWeeder G2, por exemplo, utiliza câmeras e lasers para eliminar ervas daninhas, realizando em um dia o trabalho de aproximadamente 75 trabalhadores humanos.
Outras indústrias que dependiam de imigrantes também estão investindo em automação. A rede de fast-food White Castle está instalando robôs para operar as fritadeiras, e a Amazon prevê que a automação tornará obsoletos mais de meio milhão de funcionários até 2033.
O agronegócio, em particular, tem se beneficiado enormemente da automação. Em 1940, um agricultor alimentava cerca de 20 pessoas. Hoje, com o auxílio da tecnologia, um agricultor supre as necessidades de mais de 160 pessoas, liberando mão de obra para outras áreas.
Desafios persistentes e a busca por soluções
Apesar do avanço da automação, alguns trabalhos ainda exigem intervenção humana. Na fazenda de Hemminger, por exemplo, o nascimento de bezerros requer a presença de um trabalhador. Culturas como o repolho dependem de trabalhadores migrantes com vistos temporários, e não há robôs para realizar essas tarefas.
O salário médio por hora no campo em 2024 era de US$ 18,12, significativamente menor que em outros setores. Mesmo com salários mais altos, a disposição de americanos para assumir esses trabalhos continua baixa, como demonstrado em um estudo na Carolina do Norte, onde poucos desempregados se candidataram a vagas agrícolas.
A conclusão, segundo Hemminger, é que se as fazendas americanas não podem importar mão de obra, terão que importar o resultado desse trabalho. O governo Trump, apesar de discursos, tem buscado acomodar a necessidade de trabalhadores imigrantes, aumentando o número de vistos sazonais.
Essa política de tentar expulsar a força de trabalho imigrante mais rápido do que as alternativas automatizadas podem ser implementadas gera caos e esforços frenéticos para consertar problemas criados. Uma abordagem mais transparente, com incentivos para automação e um tratamento justo para imigrantes, seria um caminho mais promissor para o futuro do agronegócio americano.