Cidades em Dificuldade Financeira Gastam R$ 2,1 Bilhões com Shows, Ignorando Necessidades Básicas
Um escândalo financeiro abala o cenário municipal brasileiro. Conforme apurado pelo portal UOL, mais de mil cidades em situação fiscal crítica destinaram a impressionante quantia de R$ 2,1 bilhões para contratação de artistas nos últimos dois anos. O levantamento, que utilizou dados do Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), revela um paradoxo alarmante: municípios com baixos índices de desenvolvimento e endividamento elevado optam por investir pesadamente em eventos culturais, negligenciando áreas cruciais como saúde, educação e o pagamento de servidores.
O estudo considera cidades com classificação C ou D na Capacidade de Pagamento (Capag), um índice do Tesouro Nacional que avalia a saúde financeira dos municípios. Essa realidade contrasta fortemente com as necessidades básicas da população, gerando indignação entre trabalhadores e especialistas. A falta de transparência em algumas contratações e as disparidades nos valores pagos por artistas semelhantes levantam suspeitas de superfaturamento e desvio de verbas públicas.
As consequências desses gastos excessivos são visíveis na ponta, com obras paralisadas, unidades de saúde sem especialistas e medicamentos em falta. Enquanto isso, cachês milionários são pagos a artistas renomados, muitas vezes sem justificativa clara de público ou relevância para a comunidade. A situação tem levado o Ministério Público e Tribunais de Contas a intensificarem a fiscalização e a buscarem mecanismos para barrar contratações lesivas ao erário público. As informações são do levantamento do UOL, com auxílio da ONG Transparência Brasil.
Quijingue: O Exemplo de um Município em Dificuldade Financeira
O município de Quijingue (BA), que figura entre as cidades com um dos piores PIBs per capita do Brasil, é um retrato preocupante dessa realidade. A cidade quadruplicou suas despesas com festejos juninos em 2025 e ampliou contratações para outros eventos. Em janeiro de 2026, a dupla Zé Neto e Cristiano foi contratada por R$ 854 mil para a festa de São Sebastião. Essa situação é criticada pelo sindicato dos servidores, que relata salários atrasados mesmo após a prefeitura gastar cerca de R$ 10 milhões com shows desde o início de 2025.
Santa Bárbara do Tugúrio: Dívidas e Shows Milionários Lado a Lado
Em Santa Bárbara do Tugúrio (MG), a situação não é diferente. Vereadores apontam dívidas com fornecedores e obras essenciais paralisadas, como captação de água e uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Apesar disso, os gastos com artistas continuam altos. A cidade, com apenas 4.000 habitantes, assinou contratos vultosos nos últimos dois anos, incluindo R$ 600 mil para o Calcinha Preta, R$ 500 mil para João Gomes e R$ 480 mil para Zezé Di Camargo, entre outros. A Justiça chegou a barrar a contratação da cantora Joelma, em 2024 e 2025, devido ao aumento das despesas com shows em detrimento do orçamento de saúde e educação.
Disparidades de Cachês e Suspeitas de Irregularidades
O levantamento do UOL também identificou disparidades significativas nos valores pagos por artistas em diferentes cidades, o que pode indicar superfaturamento. Gusttavo Lima, por exemplo, custou R$ 900 mil em Petrolina (PE) em junho de 2024 e R$ 1,2 milhão em Maceió (AL) no dia seguinte. O cantor Pablo se apresentou por R$ 220 mil em Paratinga (BA) em 2024 e R$ 900 mil em Boa Vista (RR) em novembro de 2025. O cantor Leonardo recebeu R$ 2,3 milhões em Boa Vista (RR) no Réveillon de 2026, enquanto sua média para 63 shows anteriores em 2024 e 2025 foi de R$ 660 mil.
Emendas Parlamentares e a Nova Indústria de Shows
A influência das emendas parlamentares na explosão dos gastos com shows é apontada por especialistas. O cientista político Eduardo Grin, da FGV, afirma que a disponibilidade dessas verbas permitiu que municípios sem condições fiscais contratassem artistas renomados. Embora não seja possível quantificar exatamente o montante de emendas destinadas a shows, a menção à palavra “emenda” aparece em R$ 45 milhões das contratações no levantamento. A falta de padronização e transparência nos dados do PNCP dificulta a rastreabilidade completa desses recursos.
Iniciativas para Frear Gastos e Promover Transparência
Diante do cenário, órgãos de controle e associações de municípios buscam soluções. Na Bahia, o Ministério Público lançou a iniciativa “São João sem milhão”, com uma nota técnica que sugere um teto de R$ 700 mil por cachê para o São João de 2026 e recomenda que os valores não ultrapassem a média do artista no ano anterior, corrigida pela inflação. Iniciativas semelhantes estão em discussão em outros estados do Nordeste. Além disso, um projeto de lei apresentado pelo senador Alessandro Vieira propõe a obrigatoriedade de 50% de artistas locais em contratações de shows e a divulgação detalhada das informações com 30 dias de antecedência.