Contrato de R$ 800 mil para influenciadores no ‘projeto DV’ oferecia ataque ao Banco Central, ligação com Banco Master e CEO Daniel Vorcaro em meio a ação judicial

Mensagens enviadas a influenciadores em meados de dezembro organizaram um bombardeio digital contra a autoridade monetária, em meio à guerra jurídica envolvendo o Banco Master.

O movimento, apelidado de projeto DV, coincidiu com as iniciais do CEO do banco, Daniel Vorcaro, e veio quando ações no STF e no TCU aumentaram a pressão sobre investigadores e defesa.

As informações sobre os contratos foram publicadas em reportagens da Folha e antecipadas pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, conforme reportagem da Folha e antecipação de Malu Gaspar, do O Globo.

Como funcionou o recrutamento

Segundo a reportagem, a articulação começou em meados de dezembro, quando a equipe responsável pelo trabalho enviou mensagens a perfis com grande alcance nas redes sociais. O marketeiro André Salvador procurou influenciadores oferecendo, nas palavras de um dos alvos, que “Ofereceram valores expressivos”.

O documento apresentado a um dos procurados classificava como confidenciais estratégias, planos e informações jurídicas e financeiras, além dos nomes de qualquer participante da campanha, incluindo membros do time, parceiros e terceiros.

O contrato que acompanhava a proposta previa uma multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo, e estava em nome da empresa Unltd Network, da qual Salvador é sócio.

Quem foram procurados e as respostas

Entre os procurados estiveram o influenciador Rony de Assis Gabriel, identificado como vereador em Erechim, no Rio Grande do Sul, e o deputado estadual Léo Siqueira, do Novo-SP. Ambos recusaram as propostas, segundo gravações de tela vistas pela Folha.

Gabriel, que tem 1,7 milhão de seguidores no Instagram, relatou ter sido contatado por Salvador em 20 de dezembro. Siqueira recebeu mensagem no dia 21, mas afirmou que não deu seguimento e optou por não participar.

Vários influenciadores mencionados negaram a contratação. Sobre a presença de criadores de conteúdo na lista, a influenciadora Carol Dias disse textualmente, “Isso não é verdade. Várias vezes a gente falou aqui do Banco Master, esclareceu pontos do Banco Central. O que a gente faz é trazer fatos da mídia, que é o correto. Não trazemos narrativa sem prova. Tem que ter prova. Um print, um vídeo, não justifica nada. E Rony Gabriel, por favor, né? Você vai se candidatar”, e afirmou que seu advogado vai processar acusadores.

O influenciador Paulo Cardoso também negou vínculo, escrevendo, “Se eu tiver algum questionamento para fazer, eu vou fazer, isso não vai me amedrontar. Eu não assinei contrato nenhum com banco nenhum e as minhas opiniões são 100% livres”.

Intermediários, empresas e ligações

Salvador apresentou-se como sócio da Unltd Network e afirmou trabalhar com gestão de reputação e crise para um “executivo grande”. Em outro contato, o profissional disse ser funcionário da agência Mithi, ligada a Thiago Miranda, sócio do Grupo Léo Dias.

O jornalista Léo Dias afirmou que Miranda deixou o Grupo Léo Dias, do qual foi CEO, em junho, embora permanecesse na sociedade. A reportagem tentou contato com Salvador e Miranda, sem sucesso.

A página de humor Alfinetada chegou a publicar conteúdo crítico ao ex-diretor do BC Renato Gomes em 30 de dezembro. A página é assessorada pelo Grupo Farol, que afirmou nunca ter sido procurado para negociar comunicação relacionada ao Banco Master.

Alvo e contexto institucional

A ofensiva digital alinhada à defesa do Banco Master mirou especificamente ex-diretores e membros da cúpula do Banco Central, incluindo o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, Renato Gomes, e o presidente do BC, Gabriel Galípolo.

A área de Gomes recomendou o veto à compra do Master pelo BRB e subsidiou achados levados ao Ministério Público Federal, o que intensificou a disputa entre investigadores e advogados do banco.

Relatos apontam que além de críticas a agentes do BC, a estratégia tentava fragilizar banqueiros e associações que publicaram notas em defesa da decisão técnica de liquidação do Master em novembro.

O episódio levanta questões sobre uso de contratos de confidencialidade e pagamento a influenciadores em crises corporativas, com potencial para interferir no debate público sobre regulação financeira e investigação de instituições, e destaca a necessidade de transparência em ações de comunicação que envolvem interesses do sistema financeiro.

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