Estudo brasileiro mostra transplante de medula de doador parcialmente compatível é tão seguro quanto de doador 100% compatível, com dados de 501 pacientes

Um estudo multicêntrico brasileiro avaliou segurança e eficácia do transplante de medula de doadores familiares parcialmente compatíveis, conhecidos como haplo, em comparação com transplantes de doadores não parentes totalmente compatíveis, os MUD.

Os resultados foram apresentados no encontro anual da ASH, em Orlando, e os dados foram validados pelo CIBMTR, indicando equivalência em desfechos clínicos relevantes.

O estudo envolveu 501 pacientes adultos com leucemia em remissão completa, coletados entre 2018 e 2021, e traz informações importantes para a prática no Brasil, onde a miscigenação torna mais difícil achar doadores 100% compatíveis, conforme informação divulgada pelo Einstein Hospital Israelita e pela SBTMO.

Como foi o estudo

Os pesquisadores reuniram dados de 21 hospitais brasileiros sobre 501 pacientes que passaram por transplante de medula entre 2018 e 2021. Do total, 335, ou 66,8%, receberam transplante parcialmente compatível, o chamado haplo, e 166, ou 33,2%, receberam de um doador 100% compatível, o MUD.

Os pacientes tinham 18 anos ou mais e eram portadores de leucemia mieloide aguda, LMA, ou linfoblástica aguda, LLA, em remissão completa no momento do transplante.

Resultados principais

Após acompanhamento com mediana de 26 meses, os autores não encontraram diferenças clinicamente significativas entre os grupos em taxas de sobrevida, recidiva do câncer e toxicidade relacionada ao transplante.

Em outras palavras, o transplante de medula com doador parcialmente compatível mostrou-se factível, eficaz e seguro, comparável ao transplante com doador 100% compatível.

Por que isso importa para o Brasil

A líder do estudo, Mariana Kerbauy, especialista em hematologia e transplante do Einstein Hospital Israelita, destaca que “Como o Brasil é um país muito miscigenado, isso dificulta na hora da gente achar um doador 100% compatível no banco. Então, o fato da gente poder fazer um transplante equivalente com alguém da família metade compatível é muito importante, porque a maioria dos pacientes tem alguém que seja metade compatível”.

Kerbauy ressalta ainda que, embora estudos internacionais já apontassem resultados favoráveis para o haplo, o Brasil precisava de dados locais por causa de características próprias, como maior prevalência de infecções como citomegalovírus, doença de Chagas e toxoplasmose, que poderiam influenciar os desfechos.

Impacto na prática clínica e próximos passos

Os resultados reforçam que programas de transplante podem considerar o doador familiar parcialmente compatível como alternativa segura quando não houver doador 100% compatível nos registros, ampliando o acesso ao tratamento curativo para leucemias.

Os dados validados pelo CIBMTR e apresentados na ASH fortalecem a confiança dos centros brasileiros em ampliar o uso do haplo, e devem orientar protocolos e políticas de busca por doadores no país.

O repórter viajou a convite da Johnson & Johnson.

Leia mais

PUBLICIDADE