Estudo de Vacina em Bebês na África Continua Apesar das Controvérsias Éticas
Um estudo com 14.000 bebês na Guiné-Bissau, financiado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, para avaliar os efeitos da vacina contra hepatite B em diferentes momentos de aplicação, segue em frente mesmo diante de intensas críticas de cientistas e ex-oficiais.
A pesquisa, que concedeu um financiamento de US$ 1,6 milhão a pesquisadores dinamarqueses sem processo competitivo, visa acompanhar os participantes por cinco anos, documentando mortalidade infantil, morbidade e desenvolvimento a longo prazo. O debate ético se intensificou com alegações de violação de normas de pesquisa médica.
A polêmica envolve a comparação entre a aplicação da vacina ao nascer e aos seis semanas de vida, levantando preocupações sobre a exposição de bebês a um protocolo de tratamento considerado inferior, mesmo que alinhado à norma local atual. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a dose ao nascer.
Controvérsias e Declarações Conflitantes
Apesar de a Africa CDC, braço da União Africana, ter anunciado o cancelamento do estudo com base em documentos atribuídos ao novo governo da Guiné-Bissau após um golpe militar, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS) afirmou que a pesquisa prosseguirá. Um porta-voz do HHS, Andrew Nixon, declarou que a Africa CDC utilizou comunicações antigas em uma campanha de relações públicas, sem abordar os fatos científicos.
Os pesquisadores e o governo da Guiné-Bissau não comentaram o status do estudo diante das alegações da Africa CDC. A própria Africa CDC não respondeu a questionamentos sobre sua declaração de cancelamento. A pesquisa tem sido vista por alguns como uma tentativa de justificar mudanças recentes na política de vacinação infantil nos EUA.
Críticas Éticas e Histórico do Projeto
Críticos argumentam que é antiético randomizar crianças para um protocolo de tratamento inferior, especialmente quando uma intervenção segura e eficaz já é o padrão global. Jerome M. Adams, ex-cirurgião-geral dos EUA, classificou o financiamento como uma “justificativa post hoc de recentes mudanças na política doméstica”, lembrando que padrões éticos historicamente proíbem a randomização para cuidados inferiores.
O projeto de pesquisa da Bandim Health Project já enfrentou escrutínio anteriormente. Em 2017, o grupo publicou um estudo ligando a vacina DTP a um aumento na mortalidade infantil, estudo que foi criticado como “fundamentalmente falho” por ex-diretores do CDC. A emissão do financiamento sem processo competitivo também foi apontada como uma violação de transparência e responsabilidade.
Impacto Potencial e Preocupações Históricas
Especialistas como Boghuma Kabisen Titanji, da Emory University, alertam que os fatores ambientais, sociais e contextuais na Guiné-Bissau, como pobreza e instabilidade política, podem distorcer os resultados do estudo. Além disso, há o risco de **aumentar a desconfiança nas vacinas** em uma região onde elas são “muito desesperadamente necessárias”.
A situação evoca memórias de estudos antiéticos passados, como o experimento de sífilis de Tuskegee e a pesquisa da Pfizer na Nigéria, que exploraram populações marginalizadas e minaram a confiança pública nas vacinas. A aprovação do Comitê Nacional de Ética da Guiné-Bissau em novembro, sem aprovação de conselhos éticos na Dinamarca ou nos EUA, levanta sérias questões sobre a exploração de grupos vulneráveis.
Benefícios da Vacina Contra Hepatite B e a Necessidade de Transparência
A vacina contra hepatite B é crucial para prevenir uma infecção que pode levar a doenças hepáticas crônicas, cirrose e câncer de fígado. Na Guiné-Bissau, quase 1 em cada 5 pessoas vive com o vírus. A dose ao nascer é considerada “ciência estabelecida” para prevenir a transmissão, especialmente de mãe para filho.
Apesar da importância da vacina, o estudo levanta preocupações sobre a **transparência e a ética na condução de pesquisas médicas** em países de baixa renda. A falta de aprovação por conselhos éticos nos países de origem dos pesquisadores e financiadores é um ponto crítico levantado por cientistas, que questionam a validade e a moralidade da pesquisa.