EUA Forçam Cuba a Pior Crise? Ex-embaixador Alerta: Canadá em “Aperto Vicioso” Pior que Venezuela
Enquanto o Canadá emite alertas sobre escassez de alimentos e energia em Cuba, especialistas avaliam que uma possível intervenção dos Estados Unidos para derrubar o regime cubano colocaria o país norte-americano em uma situação diplomática e econômica muito mais delicada do que a vivenciada após a intervenção americana na Venezuela.
Ex-embaixadores canadenses demonstram confiança de que o governo, por meio de Assuntos Globais Canadá, esteja formulando planos de contingência para diversas formas de intervenção que Washington possa empreender na ilha caribenha. A resposta do Canadá, contudo, pode ser significativamente influenciada pela necessidade de garantir um novo acordo comercial com os Estados Unidos.
“O Canadá, mais do que provavelmente qualquer outra nação, está preso em um aperto vicioso”, afirmou Mark Entwistle, que serviu como enviado canadense a Havana entre 1993 e 1997. A situação atual em Cuba já é marcada por dificuldades, com alertas de viagem destacando “escassez de bens essenciais, incluindo alimentos, medicamentos e combustível” em grande parte do país.
Ameaça de Intervenção Americana e o Dilema Canadense
A possibilidade de uma ação militar dos EUA em Cuba ganhou força após a recente operação que levou à captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Em Washington, setores influentes, como o Secretário de Estado Marco Rubio, têm defendido abertamente a mudança de regime em Cuba, país que enfrenta sanções americanas há décadas. Entwistle pondera sobre a “possibilidade plausível de que os Estados Unidos tomem ações ainda mais drásticas para tentar derrubar Cuba enquanto podem”, citando até mesmo um bloqueio naval que violaria o direito internacional.
“Eles estão bastante convencidos, acredito, em Washington agora de que o fim está próximo – que os cubanos não podem sobreviver ao corte do fornecimento de petróleo venezuelano”, acrescentou Entwistle. Ele ressalta, porém, a “tremenda capacidade de sobrevivência” dos cubanos.
A decisão do Canadá sobre como responder a uma “agressão significativa” dos EUA em Cuba provavelmente levará em conta as negociações em andamento para um acordo comercial continental. A ajuda humanitária é vista como uma resposta provável por parte de Ottawa.
Impacto Direto em Cuba e na Comunidade Canadense
A historiadora Karen Dubinsky, da Queen’s University, relatou de Havana que os apagões na ilha duram de oito a dez horas, com a população atribuindo a situação às restrições americanas sobre o petróleo venezuelano. “Tenho vindo aqui há muitos anos, por décadas, e acho que não via pessoas tão desanimadas em Havana”, disse Dubinsky, enfatizando o “enorme impacto” das ações dos EUA na Venezuela.
Dubinsky, que pesquisa as relações entre Canadá e Cuba, observa que a crise afeta o senso de comunidade, com eventos culturais atraindo mais estrangeiros do que locais. “Esse senso de comunidade que a cultura sempre teve aqui, que unia as pessoas, estrangeiros e cubanos, está cada vez mais difícil porque há tantos outros problemas urgentes, como mantimentos e eletricidade”, explicou.
O Canadá é um parceiro comercial e de desenvolvimento fundamental para Cuba, e os cubanos com quem Dubinsky conversa desejam manter essas relações de décadas, independentemente das ações americanas. Ela apela à compaixão: “O que quer que se pense sobre o governo cubano… eu diria aos canadenses, não percam de vista quem é prejudicado por um bloqueio. Não percam de vista quem está sofrendo – e eu digo sofrendo – sob esses constantes apagões e as tensões de viver com essa incerteza.”
Sanções e as Consequências para o Turismo Canadense
Recentemente, o presidente americano Donald Trump assinou uma ordem executiva que impõe tarifas sobre bens de países que fornecem petróleo a Cuba. Embora o México tenha temporariamente interrompido seus envios, o presidente mexicano Claudia Sheinbaum classificou a decisão como soberana. Trump tem pressionado o México a se distanciar do governo cubano, expressando confiança na iminente queda do regime.
Matthew Levin, ex-embaixador do Canadá em Cuba, acredita que o governo cubano dificilmente colapsará, dada a resiliência da população à escassez. No entanto, o turismo canadense, um setor vital para a ilha, pode exigir assistência consular se houver colapsos de infraestrutura ou violência generalizada. “Tenho certeza de que as operações consulares em Assuntos Globais Canadá estão preparando cenários, e tenho certeza de que eles estão em contato com os operadores turísticos responsáveis por transportar a grande maioria dos canadenses que vão para Cuba”, disse Levin.
Levin também prevê que, embora uma intervenção direta dos EUA em resorts seja improvável, as escassez de alimentos e combustível já estão impactando o país, apesar dos esforços do governo cubano para proteger a indústria do turismo. Ele descreve o governo cubano como tendo um “mecanismo de governança muito coeso e hermético” que permaneceria amplamente inalterado em caso de remoção de seu líder.
Relação Canadá-Cuba e o Futuro da Ilha
Tanto Levin quanto Entwistle admitem que Cuba seria afetada por um embargo de petróleo venezuelano, mas ainda poderia obter suprimentos de Rússia e México. Entwistle destaca a relação “profundamente diferente” entre Canadá e Cuba em comparação com os EUA, que buscam a mudança de regime desde 1959. “Juntamente com o México, somos realmente os únicos países do hemisfério que mantiveram uma relação ininterrupta e estável com os cubanos”, observou.
A política canadense de “engajamento construtivo” visa incentivar a liberalização política e econômica de Cuba através de relações comerciais e intercâmbios pessoais. Assuntos Globais Canadá informa que o Canadá é o segundo maior investidor direto em Cuba, especialmente nos setores de mineração e turismo, que ainda se recuperam da pandemia. Esse investimento persiste apesar das sanções americanas.
Membros conservadores do parlamento canadense têm pressionado por uma postura mais firme contra o regime cubano, exigindo ações em favor de presos políticos e contra o apoio cubano à Rússia na Ucrânia. O deputado conservador Garnett Genuis classificou Cuba como “uma ameaça à segurança regional e global”.
Entwistle, por sua vez, aponta para o crescimento do setor privado em Cuba como um desafio à sua ideologia de igualdade, onde elites com recursos financeiros têm acesso a bens que a maioria da população não consegue. “O que estamos vendo em Cuba é uma fragmentação e segmentação crescentes da sociedade, o que coloca mais estresse, é claro, na tese revolucionária”, disse ele. Ele vislumbra um futuro onde o Canadá poderia auxiliar Cuba na transição para um modelo social-democrata, semelhante a alguns estados europeus. “Há um futuro diferente para Cuba do que apenas colapso, desespero e anarquia. E eu acho que é do interesse do Canadá, como líder nas Américas, que façamos tudo o que pudermos para não deixar que esse último cenário se concretize”, concluiu.