Lula defende regulação global da IA pela ONU e critica controle de “um ou dois donos”

Lula propõe que a ONU lidere a regulação da Inteligência Artificial, alertando sobre riscos de controle privado

Em sua visita oficial à Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou uma posição firme sobre a necessidade de regulamentação da Inteligência Artificial (IA). Ele defende que essa tarefa seja conduzida por uma instituição multilateral de grande porte, como as Nações Unidas, para garantir que os benefícios da IA sejam distribuídos amplamente, em vez de concentrarem-se nas mãos de poucos.

A declaração foi feita durante uma entrevista ao programa India Today, onde Lula abordou diversos temas de relevância internacional. A preocupação com o uso ético e benéfico da IA para a sociedade foi um dos pontos centrais de sua fala, destacando os potenciais perigos se o controle ficar restrito a interesses privados.

Além da IA, o presidente reiterou a importância de fortalecer o BRICS e discutiu a possibilidade de aumentar o uso de moedas locais nas transações comerciais entre os países membros, como forma de reduzir a dependência do dólar americano. Essa visão busca reconfigurar as relações econômicas globais.

IA: Um chamado por controle coletivo e proteção social

Lula enfatizou a urgência de estabelecer regras claras para o uso da Inteligência Artificial. Ele acredita que uma entidade como a ONU possui a capacidade e a legitimidade para criar uma regulamentação robusta. O foco principal dessa regulação, segundo o presidente, deve ser a proteção de grupos vulneráveis, como crianças, adolescentes e mulheres, coibindo o uso da IA para fins prejudiciais e violentos.

Os riscos associados ao mau uso da IA são, na visão de Lula, significativos. Ele alertou que a tecnologia pode causar danos profundos à vida íntima das pessoas e incitar a violência, caso não haja um controle adequado. A concentração de poder nas mãos de poucos proprietários de grandes plataformas de IA é um ponto de preocupação.

“Há dois ou três proprietários de grandes plataformas que não desejam qualquer tipo de regulação, mas se não regularmos e perdermos o controle, acredito que isso não será bom para a humanidade”, declarou Lula. Ele reforçou que, embora possa ser lucrativo para alguns, a falta de regulação pode ser prejudicial para o progresso humano.

O presidente ressaltou que a IA, apesar de ser uma ferramenta extraordinária, deve estar a serviço da sociedade civil. Ele vê potencial na IA para elevar os padrões de vida em áreas cruciais como saúde e educação, impulsionando o crescimento econômico e a melhoria dos serviços públicos e privados, além de otimizar as condições de trabalho globais. A sociedade, segundo ele, é quem deve assumir o controle sobre a Inteligência Artificial.

BRICS: Uma voz para o Sul Global e novas abordagens institucionais

Ao ser questionado sobre o futuro do BRICS, Lula o classificou como uma das iniciativas mais importantes das últimas décadas. Ele comparou o bloco a outros grupos como o G7, que representa países ricos, e o G20, criado após a crise de 2008, destacando que o BRICS se posiciona como um representante do Sul Global.

O bloco, que agora inclui países que somam mais da metade da população mundial, como Índia e China, traz uma nova abordagem institucional. Lula argumentou que, diferentemente de instituições tradicionais como o FMI e o Banco Mundial, o BRICS pode inovar e criar modelos adaptados às necessidades do século XXI, em vez de seguir modelos do século XX.

O BRICS é formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia e China, com a África do Sul juntando-se em 2011. Recentemente, o bloco expandiu-se com a entrada de Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã em 2024, fortalecendo sua representatividade global.

Desdolarização e comércio com moedas locais ganham força

No que diz respeito à redução da dependência do dólar, Lula defendeu o respeito às escolhas de cada país para realizar suas transações comerciais. Ele reiterou que acordos comerciais, como os entre Brasil e Índia, não precisam ser necessariamente denominados em dólares, podendo utilizar as moedas locais.

Embora reconheça os desafios para a implementação dessa mudança, o presidente acredita que é possível tentar, pois nenhum país precisa depender exclusivamente do dólar. Ele citou como exemplo a experiência do seu primeiro mandato, quando foram estabelecidos acordos com a Argentina para transações em moedas brasileira e argentina, ressaltando que é um processo que exige discussão e análise do que é mais vantajoso para cada nação.

Relações com EUA e Índia: Parcerias estratégicas em foco

Lula também comentou sobre sua relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmando ter uma boa relação e estar aberto ao diálogo sobre temas de interesse mútuo. Ele mencionou a possibilidade de parcerias para a exploração de minerais críticos no Brasil, mas ressaltou a importância de manter a soberania nacional.

Quanto à relação com a Índia, o presidente destacou a importância de fortalecê-la. A presença de 300 empresários brasileiros na comitiva, e a expectativa de igual número de empresários indianos em fóruns de negócios, demonstram o interesse em aprofundar as relações culturais, políticas, comerciais e econômicas entre os dois países. O objetivo é aprender, ensinar, comprar, vender e construir parcerias que beneficiem ambos os povos, reforçando a defesa do multilateralismo.

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